sexta-feira, 27 de junho de 2008

Dos índios Caetés à República dos Palmares, regredindo aos feudos: Alagoas paraíso das águas

Estamos vivendo a maravilhosa contribuição da corrupção para nos enxergar e compreendermos. Como já diziam, a “contribuição milionária de todos os erros!”. Oportunidade única. E diante disso, temos a debandada da classe média e alta. Como explicá-la? Estamos entregue à ditadura da mentira, manipulada pelos “detentores do poder” com a conivência dos poderes, com as denúncias, com provas cabais, com evidências solares, tudo diante dos nossos olhos impotentes, e... Estamos calados. Quando se manifestam isoladamente, como suspiros esparsos, emitem um mal-estar “superior”, um lamento dolorido.

Em tempos de esperança, a famosa e bem conhecida definição de democracia feita por Abraão Lincoln (um presidente decisivo no aprofundamento da democracia americana), segundo a qual o governo deve ser do povo, para o povo e pelo povo, serve como guia para certas práticas que nós tendemos a esquecer ou bloquear.

Homens decentes (Sapucai, Barenco, Mendonça Neto e outros tantos) buscam uma solução que não vem, porque nossa estrutura institucional é um rio sem foz. Este imenso espasmo de verdade, esta brutal explosão de nossas vísceras nunca vistas antes talvez seja perdida porque as manobras do atraso trabalham unidas para que a mentira vença. A verdade tem de ser tapada de qualquer jeito, para que a miséria extrema alagoana continue como sempre foi. Quando haverá manifestações da sociedade para confrontar o que vemos à nossa frente? As denúncias têm provas e continuam negando tudo, desconstroem evidências? A muralha dos poderes resiste diante das palavras. E os canalhas ainda se sentem protegidos pelo labirinto do Judiciário, pois até o momento não foram ou não continuam presos.

A covardia intelectual é grande. Há o medo de ser chamado de reacionário ou careta ou de perder regalias irregulares conquistadas e/ou ser mal visto.

Restam os que olham em pânico o que está acontecendo e não sabem como reagir? Por quê? Tenho algumas teorias. A mais ampla é que a situação atual mexe com dogmas. Isso é como se tocasse na virgindade de Nossa Senhora. Quem está disposto a entender e mexer com o mito fundador de Alagoas??

Sim, e Abraão Lincoln??? Do povo, para o povo e pelo povo

Refere, sobretudo, à interação entre governo (ou, se quiserem, Estado ou aparelho governamental) e povo (ou a sociedade e seus valores). Pois quando se fala em governo do povo, faz-se uma reviravolta que deixa louco os “nossos senhores feudais”. Como, perguntam, um governo pode ser do povo se o povo é, a princípio e por definição, desorganizado, ignorante, individualista, malformado racialmente, mal informado, não-homogêneo, infantil, etc., etc., etc...

A visão negativa do povo é um carga pesada, para não mencionar o problema talvez mais complexo, mas fundamental para uma pesquisa, que é saber como nós, de todas as classes sociais, representamos e pensamos o povo entre nós. A ausência de definição é boa, porque serve para continuar atuando em seu nome. Exatamente como ocorria na época em que Lincoln - que, entre outras coisas, emancipou os escravos americanos em 1862 - escreveu sua feliz definição de um regime democrático-igualitário.

Mas, cabe perguntar, como isso é entendido? Como é que, no nosso dia-a-dia marcado pelos estilos hierárquicos de convivência social e conivência com a malandragem entendemos esse do povo, para o povo e pelo povo?

A beleza da formulação de Lincoln é que ela diz que a arte de governar tem a ver tanto com coisas grandiosas, como libertar escravos, liquidar a inflação ou propor zerar a fome, quanto com coisas pequenas e rotineiras, como conferir ao povo a confiança no governo que deve ser como ele. Se recebemos bem as pessoas em nossas casas, por que temos que ser maltratado, e até mesmo ignorado, pelos governantes?

Nesse sentido, o para o povo diz respeito aos grandes movimentos palacianos e políticos: as canetadas administrativas que nomeiam secretários e assessores competentes e fazem nascer projetos espetaculares que são o passaporte para o futuro. Já o do e para o povo, falam das rotinas administrativas que permitem criar igualdade, entrelaçando povo e governo como parte e parcela de um mesmo ideal de vida.

Então, se o governo é do povo e para o povo, como aceitar como normal: secretários, assessores parlamentares, cargos comissionais serem preenchidos por incompetentes, relapsos, e muitas vezes corruptos? Novo Conselheiro do Tribunal de Contas ser parente próximo de preso na Operação Taturana e também está indiciado na mesma Operação da PF? Deputados disputando vaga de conselheiro do TC com voto atingindo lance de R$ 200 mil, segundo o portal TudoNaHora? Vale ressaltar que o TC fiscaliza as contas públicas e, aqui em Alagoas, serve para ter os políticos nas mãos através de chantagens e formação de “blocos políticos”.

Essa interface do Estado com a sociedade tem sido o calcanhar-de-aquiles de todos os governos. Pois sai Império e vem República, sai ditadura e vem democracia, saem os "burgueses" e entram os "trabalhadores" e o velho balcão continua o mesmo. Há uma enorme insensibilidade para a nossa pesada tradição de feudo coronelista e para com a nossa cultura da espera, ato costumeiro e habitual de uma sociedade hierarquizada que faz democraticamente o governo, mas que com ele não governa.

Por isso, pergunto: quando haverá uma manifestação séria da opinião pública? Uma ação continuada de notáveis para impedir este jogo de carniça entre os poderes, esta vergonha que humilha e impede o nosso crescimento? Vamos continuar de braços cruzados?

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